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BURRO NA POLÍTICA

  • Foto do escritor: Salvador Araújo
    Salvador Araújo
  • 30 de mai. de 2023
  • 4 min de leitura

O burro ganhou a Getúlio Vargas. Vinha na frente, soprava cansado. Atrás, o carroceiro: carroçava duramente o burro, ao mesmo tempo em que alugava a orelha desse seu subordinado. A carroça, empenada e velha, ringia desavergonhadamente. Nos seus solavancos parecia dizer: “Só voto no X!... Só voto no X!... Só voto no X!... ”


Ao lado, o Dr. X, multiplicado não sei por quantas vezes, sorria como a carroça ringia.

Em cima, o homem contava ao burro a conversa do bar. Ouçamo-la:


“— Ainda bem que somos do Dr. X! Veja bem, eles pensam que a gente não ouve. Tinha dois lá no bar: um de um lado, outro do outro da mesa, a contar seus próprios podres. Folgados! Escutei tudo que eles diziam:


— Às vezes, eu sinto até nojo e fujo das pessoas; outras vezes, agarro-me a elas como minha única salvação.


— É incrível, não é?


— O povo é muito bom, mas tem seus defeitos.


— Falando em povo, o que você faz pela sua cidade?


— Antes ou depois das eleições?


— Antes e depois.


— Bom, o mais difícil é antes. É preciso trabalhar duro, pegar no pesado: viajar muito, subir em palanques, inventar promessas impossíveis de se cumprirem...


— E depois?


— Ah!... Depois é moleza! Se ganhar, saio da cidade e fico só na capital; se perder, ponho a culpa no povo e me faço de vítima.


— É!... Você está ficando bem sabidinho!... Já passei por tudo isso.


— Mas, agora que você já tem um grande nome, tem também que inventar projetos mais ousados em prol do povo, benefícios para as pessoas de sua região, e outras coisas mais... Tem até que tomar mais cuidado também!...


— É, mas também só invento esses tais projetos. Pouco me importa se eles nem forem a plenário. Eu não me sacrifico, nem jogo o que é meu nisso para conseguir alguma coisa para o povo! Pobre não pode ficar de barriga cheia, senão tem tempo de pensar e passa a não nos dar bola.


— É isso mesmo: se o povo não tivesse fome, não aceitaria vender o voto por qualquer coisa.


— Já pensou?!... Seria um desastre para a Política!


— O bom é fazer com que o povo fique alienado. Louvam a gente como a um deus nos comícios. Obá!... mas é bom!...


Ah!... Que vão todos à merda! Não tenho mais tempo para essa conversa. Deixe que eles tomem seu uísque caro, enquanto eu engulo minha cachaça barata. Preciso trabalhar sério, não sou candidato a nada. Sou do X, meu voto é do X!


A rua está cheia de papel! Aqui ou ali, a gente só pisa em sant... Santinhos, nada: Diabos! Traiçoeiros e enganadores da consciência alheia. Na favela onde moro, ninguém vai. Nem prefeito, nem vereador. Quando a gente desce o morro para reivindicar alguma coisa, eles nunca estão. Volta depois e eles ainda não chegaram. Tudo isso, esperando um tempão de cada vez.


Lá um belo dia, quando já estamos cansados de tantas amolações, conseguimos falar com eles: apressadamente, um minuto para cada favelado. Então eles prometem que vão atender a gente, mas que dia?...


O tempo vai passando e a prefeitura continua sem verba. Mas a imprensa anuncia grandes obras realizadas. Principalmente na televisão e no rádio. É para atingir o público que não lê. Tem muita gente que não lê, ainda mais jornal.


Assim vai, assim vai. Até o mandato acabar. E a gente tem que começar tudo outra vez.

Em favelado ninguém vota. Eu mesmo não voto. Nunca vi pobre votar em pobre! É ser mais atrasado ainda.


Meus filhos estão com fome e sem escola. Acho que a coitada de minha mulher vai morrer de velha sem saber escrever o nome dela. E eu?... Não tenho nada: só a carroça e você. Também não tenho leitura, só sei fazer continhas vagabundas.


Mas eu confio no Dr. X. Voto nele de olhos fechados. É meu compadre, padrinho de Neném. Você não sabia? Você é burro mesmo!... Sou o Dr. X até o cuspe!


Uns querem se fazer de bons e defensores do povo; mas quando chegam lá em cima, se igualam aos outros. Por eles eu serei sempre um carroceiro e você sempre um burro. Mas nós temos o Dr. X, vou votar nele. Com ele eu sei que será diferente: tem muito, não precisa roubar mais. Anda logo!... Anda logo!... Não quero perder o programa dele. Está vendo?... Se fosse você, votaria em branco, não é?”


O animal escarrou como a concordar. Entendiam-se muito bem. Já um parecia ser parte do outro. Feliz era o burro que não tinha título de eleitor ainda. Mas, um dia — quem sabe —, o coitado terá. Do jeito que as coisas vão, cada burro do lado de um político vai ser um voto a favor da corrupção.


Mas fechemos esta crônica, enquanto o homem ainda vai ali pela mesma “Rua Direita”. Continua a chicotear seu burro e a conversar ininterruptamente com ele. Não se pode saber o que dói mais no pobre animal: se as chicotadas, ou a ladainha do carroceiro. A carroça — enfeitada de todos os lados com fotos do Dr. X — é a única coisa que os divisa. Porém, dá para perceber que um é mais homem que burro; o outro, mais burro que homem.


Texto publicado pelo autor, em 2012, no livro “A felicidade se faz de coisas possíveis”, pp. 44-47.

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